sábado, 26 de maio de 2012

REVERSO

REVERSO


Quando estiveres só
no intervalo entre amores
se ainda existe encanto,
dá a mão ao meu verso.

O meu verso te deita na mesa
ainda, e pisas no seu peito,
nas suas faces ainda,
com a mesma febre e ternura.

O meu verso não esquece
dos teus pontos francos,
onde gritas, onde sorris
a chorar, onde estremeces.

Há uma palavra da língua
da chama que só derramo
em teu ouvido, e o codicilo
dum sonho guardado pra ti.

A marca rosada
da tua sandália, a borda arrepiada
do teu mamilo, a gota salobra
no cálice do teu umbigo:
saudades em macro.

Retrato rasgado,
juntado com Durex; o amor via Sedex;
um gosto de língua na língua sem
gosto e um rosto na janela introvertida.

Quando estiveres só,
se inda houver encanto,
dá a mão ao meu verso,
ao meu reverso: me chama.


Igor Buys
26 de maio de 2012

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O EMPREGADO PADRÃO (CONSTRUÇÃO DE UM PELEGO)

O EMPREGADO PADRÃO (CONSTRUÇÃO DE UM PELEGO)

Versão de Working Class Hero, de J. Lennon


Assim que tu nasces, reduzem-te a pó
Pois não te dão nada, nem tempo nem dó
Pra que a dor te congele e não sintas mais nada
Empregado padrão é marcado pra ser
Empregado padrão é marcado pra ser

Machucam-te em casa e te batem na escola
Odeiam espertinho e desprezam os trouxas
Pra que fiques tão doido que sigas as regras
Feitor de sua classe é criado pra ser
Feitor de sua classe é criado pra ser

Torturado e assustado há vinte anos a fio
De repente te pedem que escolhas função
Mas tu mal funcionas, só enxergas teu medo
Pelego feitor é marcado pra ser
Pelego feitor é marcado pra ser

Tão dopado de igreja, de sexo e TV
E te achas esperto, cidadão e até livre
Mas és só um peão, um fodido e mal pago
Empregado padrão é criado pra ser
Empregado padrão é criado pra ser

Há algo pra ti lá no alto, eles dizem
Mas primeiro te ensinam a matar e sorrir
Se quiseres ser tal como os caras de cima
Chefete vendido é marcado pra ser
Chefete vendido é marcado pra ser

Se queres vencer, é só ir por mim
Se um herói queres ser: é só me seguir


Igor Buys
04 de maio de 2012


terça-feira, 1 de maio de 2012

O ANTI E O OUTRO

O ANTI E O OUTRO


Em primeiro de maio de 2011
um árabe foi morto
em sua casa
diante das mulheres amadas
esposadas, e foi morta
uma esposa, tentando defendê-lo
foi morto um de seus filhos.
Era Osama Bin Laden?
Não era? Como sabê-lo...
Entanto era um árabe
era um homem,
era uma família, mais uma
a ser chacinada. Em nome de quê?
Da vingança? Da manutenção
do mito de que o império
sempre se vinga de quem lhe resiste
e confronta?... Bem, isso, certamente:
ninguém o fez como Bin Laden.

Em primeiro de maio de 2011,
um homem foi morto,
e pelas ruas da América do Norte,
uma turba brutal urrava e saltava,
saltava e socava os ares bradando
brindando na furiosa alegria rubra,
e rubra, e rubra, e azul rota, e rubra,
rubra, rubra...
Rubra, tão rubra e rota.
Um homem foi morto. Mais um.
Mais um homem, mais um filho
uma esposa. Eram Bin Laden
e os seus?... Será que eram mesmo?
Era o filho do magnata,
o filho da família e da nação
que possui mais de seis por cento
da própria América do Norte?
Não. De mim não creio que fosse.
Não creio que fosse mais
que um dublê de Bin Laden,
mais que um seu apoiador.

Entanto apoiador quem não era?
Somos todos Bin Laden!
Somos todos palestinos, afegãos,
muçulmanos! E com um pouco
de amor: mujahadins!
Somos todos Hezbollah, Hamas!
Mas não Al-Qaeda. Pois esta
é o mesmo que América do Norte.

Um pássaro, um avião
atingiu um prédio, e outro.
Foi um homem? Fui eu,
foi você, fomos nós,
vós eles e o Anti-Cristo?
Foi Bin Laden?...
Foi um anjo, um demônio?
Uma Nêmesis ensangüentada
e exata: um gênio
um líder, — um louco...
Foram dezenove homens
munidos de facas Alfa
a derrotar um império mundial?
E num único dia, num único ato?
Foi o Cristo de retorno?
Foi o mundo que se desmoronou
e se acabou pra melhor?
Foi o começo de uma nova Era,
que se abre e raia aos poucos?
Foi o arcano 16? Nostradamus?
Zaratustra? Foi o Anti-
o Outro cordeiro santo,
revolucionário,
sanguinário de si próprio
de seus mártires, mas não só destes
e sem mostrar a outra face:
mostrando a mesma. A mesma.

Ora que honra pra um maldito
guerrilheiro
ser simbólica ou hipotética-
mente morto
no primeiro de maio.


Igor Buys
1º. de maio de 2012


Osama Bin Laden


sexta-feira, 20 de abril de 2012

TRISTEZA CAMPESINA

TRISTEZA CAMPESINA

letra para o Estudo, opus 10, no. 03, de Chopin;
conforme letra francesa consagrada


Jorra o canal
Trazendo a flor
A flor azul
Que ele prometeu

Pássaro assustado voa alto
Tanta pólvora no ar

Jorra o canal
Bebendo a cor
A cor carmim
Que a terra não tragou

É tanto jagunço e pau de fogo e trovoada sob o sol
Ai, Mãe! ai, Mãe de Deus!
Tenha dó de nós, hômi se feriu

Jorra o canal
Levando a flor
E a cor carmim
E tanto sonho azul
Ai, minha Mãe...

Cala a mata surda
De dor

Jorra o canal
Bebendo a cor
A cor carmim
Que a terra não tragou

Foi tanto jagunço e pau de fogo e trovoada sob o sol
Ai, Mãe! ai, Mãe de Deus!
Tenha dó de nós, tenha dó de mim
Hômi se foi, hômi morreu


Igor Buys
20 de abril de 2012


video

quarta-feira, 18 de abril de 2012

ÓDIO DO IMPÉRIO

ÓDIO DO IMPÉRIO


Eu odeio o império
Quase tanto como
Amo tudo o que amo.
E digo quase
Porque no amor
Há um mistério a mais.
Algo maior que as partes
Juntas: qual’ma presença
Transcarnal, transfísica,
Porém, inteligente e quase
Azul.
Nada assim pulsa no ódio.

Mas o meu ódio do império
É como um anti-oceano,
Uma não-terra inteira des-
-sorrindo em contraprima-
-vera ou verão de gelo gris;
Noite dentro da noite co-
-abissal com o silêncio e
O grito; açnairc, Guernica;
Ausência nua dum pássaro
A retrovoar na negação
De céu, de luz e sombra.

E uma das razões porqu’eu
Mais odeio o império
É — exatamente
Por me fazer a mim, poeta
Amante da vida, capaz
De ódio e de armas, capaz
Da bomba!... revés da
Pomba e da flor, porém
Sedenta.

Sedenta da mesma aurora.


Igor Buys
18 de abril de 2012


"Guernica"; Pablo Ruiz Picasso

domingo, 15 de abril de 2012

LAKSHMI

LAKSHMI


A mulher de quatro pernas

de quatro seios,
a mulher de duas bocas
de dois gemidos
não me sai da cabeça.
Como é imensa e suficiente
a sua carne vasta, de duas cores;
como é perfeito o arranjo
de seus impudores.
Eu quero de novo,
e de novo, a mulher de quatro
quartos, doze umbigos
de trinta e três posições
invulgares, sem limites.
Só ela, amazona, giganta
me escraviza o apetite,
me liberta do mesmo
niilificado, morno.
Quero sem culpa
quero sem termo
a mulher centopéia,
filha de Shiva e Aracne,
descomplicada e perdida,
perdida e orientada
pela bússola do caos,
mais nua que a nudez una
sobre a nau do Ragnarök,
anal e quadrúpeda,
antropoteomórfica,
desantropoteleológica,
infinita, infinita

Eu quero de novo
a mulher maldita,
na sua santa piedade
do macho, entronizada,
telúrica, xamânica,
vulcânica, lunática
Ela que tem a grande
vantagem de sequer ser ela,
na sua modularidade
intrínseca e sublime,
e ainda assim ser a própria,
a imensa, a imponderável
Eu quero viver o amor
dos anjos e dos golfinhos
Sim, eu quero de novo tuas
ancas de bronze e marfim;
ai, não me abandones na noite
como eu não fora teu filho...


Igor Buys
26 de março de 2011



"Ménage a trois"; Anton Nickson